Curso de extensão

 INICIANDO A TRILHA...


As Unidades de Conservação (UC) são espaços territoriais, com

relevantes características naturais, que têm a função de garantir a existência de

diferentes comunidades, habitats e diversidade de fauna e flora, resguardando o

patrimônio biológico existente (BRASIL, 2000).

Essas áreas são extensões territoriais dos espaços urbanos, portanto,

percebe-se que aquelas localizadas em centros metropolitanos ou próximas a

estes, principalmente, sofrem tensionamento constante em função do processo


de urbanização, da falta de ordenamento da cidade e da política urbano-

ambiental mal planejada.


Algumas UC passam a se tornar alvo da especulação imobiliária e locais

de degradação ambiental, muitas vezes pelo fato de não ser dado o real sentido

e significado de sua importância pelo poder público e não existir um sentimento

de pertencimento1 pela própria população sobre as mesmas. Esse fato se dá,

geralmente, em função da falta de políticas públicas setoriais e intersetoriais que

promovam a aproximação dos cidadãos a tais áreas, a fim de as valorizarem,

especificamente as UC de Uso Sustentável2 e que permitem o Uso Público.


1 O sentimento de pertencimento se refere a criar uma relação de significado e de importância,

e de se sentir pertencente a um determinado lugar, acreditando que é possível intervir nas

decisões que se referem a esse lugar.

2 As Unidades de Conservação de Uso Sustentável foram criadas com a característica de

compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos

naturais, composto pelas seguintes categorias de unidade de conservação: Área de Proteção

Ambiental (APA); Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE); Floresta Nacional (FLONA);

Reserva Extrativista (RESEX); Reserva de Fauna; Reserva de Desenvolvimento Sustentável e

Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) (BRASIL, 2000).


BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,

Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades

de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.


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O Uso Público pode ocorrer de várias formas, sendo que as atividades a

serem desenvolvidas precisam estar de acordo com a categoria de manejo da

UC, estabelecidas conforme a lei do Sistema Nacional de Unidades de

Conservação – SNUC (BRASIL, 2000). Pode ser lazer, turismo, visitas

educativas, educação ambiental e pesquisa. “[...] O ideal da visitação, de uma

forma geral, é que ela seja aberta a todos, independentemente dos seus desafios

e habilidades” (NELSON, 2012, p. 216).

Essas áreas possuem significativa importância nas cidades e em seu

entorno, no entanto, não basta criá-las e preservá-las. Sua inserção na vida das

pessoas precisa contribuir para recuperar a relação ser humano-natureza,

mesmo que inicialmente configuradas em seu aspecto utilitário,

redimensionando o urbano, com a presença do natural e de novos parâmetros

de vida citadina (BAHIA, 2012).

Em muitos casos, após a criação de algumas áreas verdes públicas, como

é o caso das UC, se as políticas públicas não tiverem como prioridade ações que

propiciem melhorias nas relações socioambientais, planejamento para um uso

público responsável e a participação popular nos debates decisórios sobre a

gestão das mesmas, estas tendem a se transformar em gargalos, muitas vezes

até serem abandonadas e então colocadas no circuito do mercado imobiliário.

Acredita-se que o planejamento e a gestão de programas, projetos e

ações que propiciem o Uso Público de uma Unidade de Conservação, pode vir

a contribuir com a valorização e com a aproximação dos indivíduos a esses

espaços.

Nesse sentido, o objetivo deste texto é demonstrar a importância das

Unidades de Conservação como espaços relacionais, quando possibilitam

vivências de lazer, de turismo e de educação ambiental para a população.

Entendendo-se os espaços relacionais como lugares que passam a assumir

significado para os indivíduos e que estabelecem vínculos com estes e com os

elementos ali contidos.


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de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.


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LAZER, TURISMO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS UC: LIMITES E

POSSIBILIDADES PARA APRENDIZAGENS E SOCIABILIDADES


A vida moderna une os indivíduos para a produção, onde a funcionalidade

imediata constitui a maior preocupação, pois causa distanciamento de si mesmo,

do contato com o outro e com a natureza, sua vida se estabelece sob o controle

social e o valor ético e moral passa a adotar um modelo de “ser produtivo”. Há

uma transferência do valor produtivo para todas as esferas da vida e para a

lógica Tempo-Espaço da vida cotidiana (BAHIA, 2012).

As vivências de lazer representam o homem moderno na cidade, e de

uma forma diferente de como acontecia em séculos passados, antes do

processo de industrialização e urbanização, onde estas eram vividas

cotidianamente sem rupturas tempo de trabalho-tempo livre.

Essa ruptura se dá quando se rompe também os locais dessas vivências,

e esses locais públicos específicos são representados por espaços que possam

proporcioná-las e, também, possam proporcionar uma relação mais próxima com

a natureza, porque nesse processo também se rompe uma vida quase unificada

de ser humano-natureza. Com isso, institucionalizam-se espaços públicos

específicos (parques, praças, áreas verdes públicas, Unidades de Conservação

etc), os quais possam propiciar um movimento de reaproximação com a natureza

(BAHIA, 2012).

A acessibilidade a esses espaços públicos, ou seja, à própria cidade e aos

equipamentos públicos componentes da mesma –, não é somente física, pois

possui subjetividades e nuances “que ultrapassam o design físico de ruas,

praças, parques, largos, shoppings centers e prédios públicos” (SERPA, 2009,

p. 16). Essa acessibilidade não se reduz à questão material, mas pressupõe,

igualmente, representações sociais e é carregada de simbolismos.

Os espaços públicos, podem ser entendidos também como áreas de

sociabilidade e de lazer e são indispensáveis ao cotidiano das cidades e de suas

extensões. Podem ser percebidos com dupla função, pois, de acordo com

Figueiredo (2008), ao mesmo tempo em que proporcionam lazer aos moradores,


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podem ser vistos como uma pequena amostra cultural do que determinada

sociedade possui, atraindo os visitantes que querem conhecer o que pode ser

classificado como típico do lugar.

Percebe-se, atualmente, um crescente aumento do interesse e da

demanda por práticas sociais de lazer e turismo na natureza, que geralmente se

direcionam às áreas verdes públicas urbanas ou a Unidades de Conservação

que permitam o Uso Público, ficando evidente a necessidade de aprofundamento

das discussões que tragam à tona os valores subjacentes a tais práticas, com

uma preocupação em ressignificar as relações estabelecidas, tanto no que se

refere às vivências de lazer e turismo, propriamente ditas, quanto à formação e

à atuação dos profissionais que deverão trabalhar nessa área, a fim de planejar,

organizar, orientar e qualificar as experiências da população nesses locais.

As oportunidades de acessar Unidades de Conservação para o Uso

Público podem facilitar a compreensão do ser humano sobre a importância de

preservação da diversidade biológica, sendo um indicador importante para o

equilíbrio ambiental e para se pensar, criticamente, as possibilidades de

ampliação do debate ambiental global e local.


De maneira geral, a utilização de áreas protegidas para o turismo

sustentável reflete algumas tendências globais, entre as quais o

crescimento da consciência ambiental, em função dos níveis

crescentes de degradação da base de recursos naturais,

incluindo a destruição de ecossistemas de alta relevância no

contexto da preservação da biodiversidade, e o processo de

reencontro do homem com sua própria essência, abandonada

pela sociedade de consumo (NELSON; PEREIRA, 2004, p. 71).

Takahashi (2004) aponta que o Uso Público, quando bem planejado e

utilizando suas ferramentas, o Plano de Manejo3 e o Conselho Gestor4

, pode


3 O Plano de Manejo é um planejamento geral de ações a serem realizadas em UCs, que deve

ser atualizado e dinâmico, afinado com funções ecológicas, científicas, econômicas, sociais e

políticas do País. É um conjunto de diretrizes desenvolvidas a partir de pesquisas e

levantamentos, devendo ser aprovado e implementado pelo órgão ambiental e possui como

característica o fato de ser gradativo, contínuo, flexível e participativo. Seus principais objetivos

são proteger a vida silvestre, os recursos hídricos e a paisagem; propiciar a pesquisa científica;

e promover o lazer e educação ambiental nas UC (MILANO, 1988).

4 O Conselho Gestor é composto por organizações governamentais e moradores locais

envolvidos com as UC, deve ser presidido pelo gestor da UC e pode ser consultivo ou


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alcançar os objetivos propostos nas justificativas de criação das UC, que é de

favorecer a compreensão e a apropriação desses espaços pelas pessoas e

possibilitar relações socioambientais.

Em estudos anteriores, Bahia (2005) analisou que já é possível se verificar

um avanço sobre a abertura de várias áreas ao Uso Público, já que as

concepções iniciais sobre o assunto estavam baseadas na herança de um

modelo norte americano, onde essas áreas deveriam afastar a população e se

configurar como “ilhas” fechadas ao seu uso e, parafraseando Diegues (2000),

deveriam seguir o “mito de natureza intocada”.


O modelo de criação de áreas naturais protegidas, nos Estados

Unidos, a partir de meados do século XIX, constitui-se numa das

políticas conservacionistas mais utilizadas pelos países de

Terceiro Mundo. Parte da ideologia preservacionista subjacente

ao estabelecimento dessas áreas protegidas está baseada na

visão do homem como necessariamente destruidor da natureza

(DIEGUES, 2000, p. 11).


O cidadão vivencia o lazer e o turismo como prática livre e como

necessidade humana, muitas vezes utilizando-se deste como intermediador de

suas relações com a natureza. Nesse sentido, é preciso reconhecer a existência

de certos limites, mas também de possibilidades de superação destes.

Algumas vezes, ao realizar atividades em áreas naturais, como as UC, o

indivíduo adota o mesmo comportamento do meio urbano (pressa, consumo,

degradação do meio ambiente, individualismo, competitividade, fetichização da

natureza etc), haja vista que as insatisfações, frustrações e desintegrações do

trabalho, comumente se reverberam também nos momentos de lazer. Sabe-se

que a vivência social é dialética e, portanto, a alienação no trabalho gera a

evasão e processos compensatórios no lazer.

Além disso, o lazer e o turismo, muitas vezes, se tornam objetos de fácil

manipulação do poder público e do próprio mercado, no sentido de direcionar a

sociedade moderna em busca de compensações que a aliene.


deliberativo. Os componentes têm por responsabilidade acompanhar a elaboração, a formatação

e a implementação do Plano de Manejo.


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Neiman, Mendonça e Schlindwein (2008) descrevem a existência de um

campo mitificado que funciona, em grande medida, como válvula de escape e de

compensação à vida complicada da cidade. Uma lógica que, algumas vezes,

acaba por sacralizar a natureza. Cada experiência individual carrega uma

percepção, sob o ponto de vista psicológico, a partir de processos cognitivos

apreendidos, muitas vezes carregados de “reflexos e impressões fugazes, tanto

no ambiente físico e social, como no imaginário” (p.116), fazendo com que as

pessoas vivenciem alguns ambientes e criem certas fantasias sobre os mesmos.

Jacobs (2000) alerta para a necessidade de se superar algumas

concepções fantasiosas de que esses tipos de áreas verdes servirão como

“pulmões da cidade”. A compreensão da necessidade dessas áreas na cidade e

em suas imediações deve superar essa ficção, e buscar compreendê-las sob

uma ótica mais abrangente.

É preciso atentar para a realidade de que algumas vivências em Unidades

de Conservação podem trazer impactos positivos, mas também podem causar

impactos negativos, o que remete a alguns cuidados e preocupações. Nesse

sentido, alguns estudos específicos demonstram a importância da implantação

de alguns métodos de planejamento e de manejo, que foram elaborados com o

objetivo de minimizar as questões de impactos ecológicos e sociais em áreas

ambientais utilizadas para lazer e turismo.

Segundo Barros e Dines (2000, p. 70), esses métodos foram criados e são

utilizados pelos sistemas de parques de diversos países, no sentido de dar maior

ênfase às condições desejadas para as áreas naturais, e não quanto uso a área

pode tolerar. “Isto corrobora de forma interessante o fato de que uma simples

solução numérica é insuficiente para atender às necessidades de manejo das

áreas naturais”.


Entre os que apresentaram os melhores resultados podemos

citar Limits of Acceptable Change (LAC)5


(Stankey et al., 1985),

utilizado em várias unidades de conservação e áreas protegidas

nos EUA; Visitor Activity Management Process (VAMP)

(GRAHAM, 1989), utilizado pelo sistema de parques do Canadá;

Visitor Impact Management (VIM) (Graefe et al., 1990) e Visitor


5 Para mais detalhes, ver Takahashi (1998).


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Experience and Resource Protection (VERP) (USDI, 1993),

desenvolvidos pelo Sistema Nacional de Parques dos EUA

(BARROS; DINES, 2000, p. 70).


Uma das estratégias para melhorar a atitude daqueles que visitam áreas

naturais e vivenciam o lazer e turismo nestas áreas, é a adoção de um programa

de educação ambiental e educação para as práticas de mínimo impacto, partindo

do pressuposto de que a grande maioria dos usuários de lazer na natureza, não

tem uma compreensão muito clara dos impactos que podem causar nestas áreas

e sobre suas ações no cotidiano das cidades. Para os referidos autores “é uma

estratégia que parte do princípio de que, recebendo informações pertinentes, de

modo adequado, o usuário estará disposto a mudar suas práticas e hábitos em

suas visitas à natureza” (BARROS E DINES, 2000, p. 71-72),

Alguns outros autores traçam caminhos para se referir às estratégias de

articulação de processos educativos formais com ações práticas informais em

espaços fora da escola, como é o caso de Reigota (1994), que compreende a

educação ambiental como um componente essencial no processo de formação

e educação permanente, com uma abordagem direcionada para a resolução de

problemas, que contribui para o envolvimento ativo do público, torna o sistema

educativo mais relevante e mais realista e estabelece uma maior

interdependência entre estes sistemas e o ambiente natural e social, com o

objetivo de um crescente bem-estar das comunidades humanas.

Nas UC, é possível adotar a educação ambiental informal, a qual pode ser

trabalhada por meio do desenvolvimento de atividades de lazer realizadas em

ambientes naturais e contribuir para a conscientização de comportamentos na

natureza de forma lúdica, caracterizando-se como um:


[...] processo que consiste em propiciar às pessoas uma

compreensão crítica e global do ambiente, para elucidar valores

e desenvolver atitudes que lhes permitam adotar uma posição

consciente e participativa a respeito das questões relacionadas

com a conservação e a adequada utilização dos recursos

naturais, para a melhoria da qualidade de vida e a eliminação da

pobreza extrema e do consumismo desenfreado. A Educação

Ambiental visa à construção de relações sociais, econômicas e

culturais capazes de respeitar e incorporar as diferenças

(minorias étnicas, populações tradicionais), à perspectiva da


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mulher e à liberdade para decidir caminhos alternativos de

desenvolvimento sustentável, respeitando os limites dos

ecossistemas, substrato de nossa própria possibilidade de

sobrevivência como espécie (MEDINA, 2001, p. 17-18).


Entende-se ser de bastante relevância os Processos Formativos dos

profissionais que atuam ou atuarão nas UC e que têm sob sua responsabilidade

o planejamento e a execução de atividades de lazer e turismo dentro das

mesmas.

Em pesquisas realizadas anteriormente sobre a formação e a atuação dos

profissionais junto à natureza (MARINHO, 2003, 2004; MARINHO e INÁCIO

2007; CORREA, 2008; BAHIA e ALVES, 2010, 2012), percebeu-se certa

dificuldade em promover uma capacitação específica para atuar nessas práticas,

tais como, o pequeno número de especialistas nessa área, a falta de materiais

pedagógicos, o reduzido apoio didático e a recente inclusão de disciplinas

voltadas para essa área em cursos de graduação de Educação Física, Turismo

e Biologia. Os avanços se dão no sentido de ser um campo em crescimento,

cada vez mais procurado e com atividades diversas a serem ofertadas para

todos os públicos. O investimento em cursos e leis que amparam a ação

profissional no meio ambiente também tem avançado.

A formação do profissional que atuará com o lazer e turismo em áreas

naturais precisa se pautar na realidade concreta do mundo moderno e deve criar

condições de observações atentas para algumas nuances compensatórias que

essas vivências possam apresentar, haja vista que, muitas vezes, passam a ser

uma válvula de escape da vida cotidiana e do estresse da vida urbana, os quais

se refletem na busca do elemento “exótico” nas viagens à natureza e uma certa

fuga de valores que são vividos no cotidiano das pessoas (PELLEGRINI FILHO,

1997; BAHIA, 2012).

A prática pedagógica precisa fomentar a reflexão das pessoas, e não

reforçar a alienação e a fuga da realidade, pois a procura por essas atividades –

seja por meio da contemplação da natureza, seja por meio de atividades (turismo

de aventura, esportes de aventura) que proporcionem a sensação de


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"adrenalina” –, não deve ser instrumento para o esquecimento do humano que

marca o cotidiano, mas para que se reflita sobre este (SERRANO, 2000).

Para isso, precisa contribuir para um debate que propicie um processo

consciente de vivência e de intervenção educativa, na busca do desenvolvimento

de relações mais saudáveis entre os indivíduos, a sociedade e a natureza,

utilizando-se de ferramentas e metodologias ancoradas numa concepção crítica

de educação ambiental, a qual é fundamentada como aquela que representa a

aplicação dos ideais democráticos e emancipatórios e se propõe a discutir “os

mecanismos de dominação humana pela acumulação de capital” (RODRIGUES;

CAMPANHÃO; BERNARDI, 2018).


O diferencial da tendência crítica é o fato de ter como

impulsionadores a problematização e a politização das questões

ambientais, não se atendo apenas aos aspectos biológicos ou

de melhoria da ecoeficiência. Em seu escopo há a necessidade

de enfrentamento político das desigualdades e injustiças

socioambientais. Outro ponto de destaque da tendência crítica é

a complexidade com que as questões ambientais são

abordadas, indo contra o reducionismo da ação individual em

prol de um bem comum. Esta linha compreende que as questões

ambientais emergentes possuem diferentes faces de poder e

dominação e que, para que se possa construir um conhecimento

transformador, o reducionismo não pode ser premissa

(RODRIGUES; CAMPANHÃO; BERNARDI, 2018, p. 193-194).


Considera-se que atuar na natureza é se sentir parte do meio ambiente,

se sensibilizar, desenvolver valores éticos, solidários, de convívio, de respeito e

de consciência de projeto coletivo de vida. Pensar e atuar com olhares para

geração futura e em prol da comunidade local. Reunindo os saberes e

conhecimentos em torno das competências operacionais, os saberes e

conhecimentos subjetivos que estão ligados a história de vida e cultura de cada

profissional (BAHIA e ALVES, 2010).

Com esse olhar, o meio ambiente assume um significado mais


abrangente, na medida em que é interpretado como o resultado das inter-

relações entre natureza e a sociedade, valorizando-se a relação meio ambiente


- qualidade de vida (social, e não apenas natural) numa esfera de amplitude

socioambiental. “Assim as propostas de educação ambiental devem buscar


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estimular ao máximo a capacidade dos sentidos de seu público, tendo em vista

a possibilidade de utilização dos mesmos para a concretização de atitudes

comprometidas com o meio ambiente” (TUAN, 1980, p. 12).


FINALIZANDO A TRILHA ...


Longe de se fechar o debate ou de se apontar “fórmulas mágicas” sobre

a temática, cabe aqui apenas levantar alguns pontos para reflexões atuais e

futuras.

As Unidades de Conservação podem se estabelecer como espaços

relacionais, no seu interior, no que se refere às possibilidades de uso público de

seu espaço, por meio de vivências de lazer, turismo e educação ambiental,

viabilizando condições de reflexões críticas e melhorias nas relações ser

humano-natureza.

Também podem viabilizar possibilidades de relações mais ampliadas, nas

quais possa se relacionar com seu exterior, ou seja, com o seu entorno, com a

cidade, com o coletivo, fomentando debates e participação popular, que possam

contribuir com a necessidade de atuação política na reivindicação de Políticas

Públicas de Meio Ambiente, de Lazer, de Turismo, de Planejamento da Cidade,

de Espaços Públicos e de Democratização Cultural e acesso à cidade (praças,

áreas naturais, espaços culturais e programas de lazer), em busca do “Direito à

Cidade” (LEFÈBVRE, 2001) e da reconstituição da unidade espaço-temporal, da

reunião dos grupos, do encontro das pessoas, da felicidade de viver a cidade e

da necessidade de se ter uma cidade socio ambientalmente equilibrada.

Um outro ponto a se considerar é a possibilidade de articulação entre

educação formal (ações nas escolas) e educação não formal (ações na própria

UC), para viabilizar debates críticos sobre os problemas ambientais, agregando

as dimensões sociais, políticas e culturais, pressupondo um questionamento da

estrutura social vigente. Além disso, considerar a necessidade de fomentar

macrodiscussões interdisciplinares, agregando temáticas gerais referentes à

sociedade e ao meio ambiente (cidades sustentáveis, intersetorialidade,


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planejamento estratégico, gestão ambiental, governança) e temáticas

específicas sobre a atuação profissional nas áreas ambientais, sobre impactos

socioambientais das práticas no meio ambiente e na própria UC.

As vivências de lazer, turismo e educação ambiental, ao assumirem um

aspecto educativo para além de práticas relacionadas aos padrões de consumo,

podem ser um dos elementos capazes de contribuir para uma certa inversão

dessa lógica. É importante salientar que tais vivências, muitas vezes,

independem da existência de uma intervenção direta do poder público,

entretanto, na cidade repartida, estas acabam por funcionar por meio da

institucionalização, e as políticas públicas se transformam em elementos

importantes para se viabilizar formas de educação para vivências mais

qualificadas.

As políticas públicas podem assumir um papel de produzir maiores

oportunidades, quando criam, facilitam o acesso e democratizam espaços

públicos, como as Unidades de Conservação. Possivelmente, serão esses

espaços que poderão vir a qualificar a diversidade de tais experiências e as

possibilidades relacionais ali estabelecidas, mas evitando estabelecer formas

muito organizadas e estruturadas de práticas que possam não atender às

demandas e às necessidades dos usuários e sim, buscando possibilidades de

vivências mais emancipatórias, livres e transformadoras.

E, como alerta Serpa (2009, p. 143), uma nova linguagem deve ser

construída, baseada na intersubjetividade das experiências, que pode revelar

pontos comuns entre profissionais e leigos. “A chave para a participação é o

diálogo. E o diálogo pressupõe a desconstrução da hierarquia das diferenças”.

Portanto, é necessário que os responsáveis pela elaboração dos projetos

“desçam do alto de seus conhecimentos técnicos” e busquem o diálogo com a

população, que mesmo “leiga” no assunto, muitas vezes é capaz de apontar a

realidade e suas necessidades concretas.


BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,

Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades

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