Curso de extensão
INICIANDO A TRILHA...
As Unidades de Conservação (UC) são espaços territoriais, com
relevantes características naturais, que têm a função de garantir a existência de
diferentes comunidades, habitats e diversidade de fauna e flora, resguardando o
patrimônio biológico existente (BRASIL, 2000).
Essas áreas são extensões territoriais dos espaços urbanos, portanto,
percebe-se que aquelas localizadas em centros metropolitanos ou próximas a
estes, principalmente, sofrem tensionamento constante em função do processo
de urbanização, da falta de ordenamento da cidade e da política urbano-
ambiental mal planejada.
Algumas UC passam a se tornar alvo da especulação imobiliária e locais
de degradação ambiental, muitas vezes pelo fato de não ser dado o real sentido
e significado de sua importância pelo poder público e não existir um sentimento
de pertencimento1 pela própria população sobre as mesmas. Esse fato se dá,
geralmente, em função da falta de políticas públicas setoriais e intersetoriais que
promovam a aproximação dos cidadãos a tais áreas, a fim de as valorizarem,
especificamente as UC de Uso Sustentável2 e que permitem o Uso Público.
1 O sentimento de pertencimento se refere a criar uma relação de significado e de importância,
e de se sentir pertencente a um determinado lugar, acreditando que é possível intervir nas
decisões que se referem a esse lugar.
2 As Unidades de Conservação de Uso Sustentável foram criadas com a característica de
compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos
naturais, composto pelas seguintes categorias de unidade de conservação: Área de Proteção
Ambiental (APA); Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE); Floresta Nacional (FLONA);
Reserva Extrativista (RESEX); Reserva de Fauna; Reserva de Desenvolvimento Sustentável e
Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) (BRASIL, 2000).
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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O Uso Público pode ocorrer de várias formas, sendo que as atividades a
serem desenvolvidas precisam estar de acordo com a categoria de manejo da
UC, estabelecidas conforme a lei do Sistema Nacional de Unidades de
Conservação – SNUC (BRASIL, 2000). Pode ser lazer, turismo, visitas
educativas, educação ambiental e pesquisa. “[...] O ideal da visitação, de uma
forma geral, é que ela seja aberta a todos, independentemente dos seus desafios
e habilidades” (NELSON, 2012, p. 216).
Essas áreas possuem significativa importância nas cidades e em seu
entorno, no entanto, não basta criá-las e preservá-las. Sua inserção na vida das
pessoas precisa contribuir para recuperar a relação ser humano-natureza,
mesmo que inicialmente configuradas em seu aspecto utilitário,
redimensionando o urbano, com a presença do natural e de novos parâmetros
de vida citadina (BAHIA, 2012).
Em muitos casos, após a criação de algumas áreas verdes públicas, como
é o caso das UC, se as políticas públicas não tiverem como prioridade ações que
propiciem melhorias nas relações socioambientais, planejamento para um uso
público responsável e a participação popular nos debates decisórios sobre a
gestão das mesmas, estas tendem a se transformar em gargalos, muitas vezes
até serem abandonadas e então colocadas no circuito do mercado imobiliário.
Acredita-se que o planejamento e a gestão de programas, projetos e
ações que propiciem o Uso Público de uma Unidade de Conservação, pode vir
a contribuir com a valorização e com a aproximação dos indivíduos a esses
espaços.
Nesse sentido, o objetivo deste texto é demonstrar a importância das
Unidades de Conservação como espaços relacionais, quando possibilitam
vivências de lazer, de turismo e de educação ambiental para a população.
Entendendo-se os espaços relacionais como lugares que passam a assumir
significado para os indivíduos e que estabelecem vínculos com estes e com os
elementos ali contidos.
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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LAZER, TURISMO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS UC: LIMITES E
POSSIBILIDADES PARA APRENDIZAGENS E SOCIABILIDADES
A vida moderna une os indivíduos para a produção, onde a funcionalidade
imediata constitui a maior preocupação, pois causa distanciamento de si mesmo,
do contato com o outro e com a natureza, sua vida se estabelece sob o controle
social e o valor ético e moral passa a adotar um modelo de “ser produtivo”. Há
uma transferência do valor produtivo para todas as esferas da vida e para a
lógica Tempo-Espaço da vida cotidiana (BAHIA, 2012).
As vivências de lazer representam o homem moderno na cidade, e de
uma forma diferente de como acontecia em séculos passados, antes do
processo de industrialização e urbanização, onde estas eram vividas
cotidianamente sem rupturas tempo de trabalho-tempo livre.
Essa ruptura se dá quando se rompe também os locais dessas vivências,
e esses locais públicos específicos são representados por espaços que possam
proporcioná-las e, também, possam proporcionar uma relação mais próxima com
a natureza, porque nesse processo também se rompe uma vida quase unificada
de ser humano-natureza. Com isso, institucionalizam-se espaços públicos
específicos (parques, praças, áreas verdes públicas, Unidades de Conservação
etc), os quais possam propiciar um movimento de reaproximação com a natureza
(BAHIA, 2012).
A acessibilidade a esses espaços públicos, ou seja, à própria cidade e aos
equipamentos públicos componentes da mesma –, não é somente física, pois
possui subjetividades e nuances “que ultrapassam o design físico de ruas,
praças, parques, largos, shoppings centers e prédios públicos” (SERPA, 2009,
p. 16). Essa acessibilidade não se reduz à questão material, mas pressupõe,
igualmente, representações sociais e é carregada de simbolismos.
Os espaços públicos, podem ser entendidos também como áreas de
sociabilidade e de lazer e são indispensáveis ao cotidiano das cidades e de suas
extensões. Podem ser percebidos com dupla função, pois, de acordo com
Figueiredo (2008), ao mesmo tempo em que proporcionam lazer aos moradores,
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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podem ser vistos como uma pequena amostra cultural do que determinada
sociedade possui, atraindo os visitantes que querem conhecer o que pode ser
classificado como típico do lugar.
Percebe-se, atualmente, um crescente aumento do interesse e da
demanda por práticas sociais de lazer e turismo na natureza, que geralmente se
direcionam às áreas verdes públicas urbanas ou a Unidades de Conservação
que permitam o Uso Público, ficando evidente a necessidade de aprofundamento
das discussões que tragam à tona os valores subjacentes a tais práticas, com
uma preocupação em ressignificar as relações estabelecidas, tanto no que se
refere às vivências de lazer e turismo, propriamente ditas, quanto à formação e
à atuação dos profissionais que deverão trabalhar nessa área, a fim de planejar,
organizar, orientar e qualificar as experiências da população nesses locais.
As oportunidades de acessar Unidades de Conservação para o Uso
Público podem facilitar a compreensão do ser humano sobre a importância de
preservação da diversidade biológica, sendo um indicador importante para o
equilíbrio ambiental e para se pensar, criticamente, as possibilidades de
ampliação do debate ambiental global e local.
De maneira geral, a utilização de áreas protegidas para o turismo
sustentável reflete algumas tendências globais, entre as quais o
crescimento da consciência ambiental, em função dos níveis
crescentes de degradação da base de recursos naturais,
incluindo a destruição de ecossistemas de alta relevância no
contexto da preservação da biodiversidade, e o processo de
reencontro do homem com sua própria essência, abandonada
pela sociedade de consumo (NELSON; PEREIRA, 2004, p. 71).
Takahashi (2004) aponta que o Uso Público, quando bem planejado e
utilizando suas ferramentas, o Plano de Manejo3 e o Conselho Gestor4
, pode
3 O Plano de Manejo é um planejamento geral de ações a serem realizadas em UCs, que deve
ser atualizado e dinâmico, afinado com funções ecológicas, científicas, econômicas, sociais e
políticas do País. É um conjunto de diretrizes desenvolvidas a partir de pesquisas e
levantamentos, devendo ser aprovado e implementado pelo órgão ambiental e possui como
característica o fato de ser gradativo, contínuo, flexível e participativo. Seus principais objetivos
são proteger a vida silvestre, os recursos hídricos e a paisagem; propiciar a pesquisa científica;
e promover o lazer e educação ambiental nas UC (MILANO, 1988).
4 O Conselho Gestor é composto por organizações governamentais e moradores locais
envolvidos com as UC, deve ser presidido pelo gestor da UC e pode ser consultivo ou
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alcançar os objetivos propostos nas justificativas de criação das UC, que é de
favorecer a compreensão e a apropriação desses espaços pelas pessoas e
possibilitar relações socioambientais.
Em estudos anteriores, Bahia (2005) analisou que já é possível se verificar
um avanço sobre a abertura de várias áreas ao Uso Público, já que as
concepções iniciais sobre o assunto estavam baseadas na herança de um
modelo norte americano, onde essas áreas deveriam afastar a população e se
configurar como “ilhas” fechadas ao seu uso e, parafraseando Diegues (2000),
deveriam seguir o “mito de natureza intocada”.
O modelo de criação de áreas naturais protegidas, nos Estados
Unidos, a partir de meados do século XIX, constitui-se numa das
políticas conservacionistas mais utilizadas pelos países de
Terceiro Mundo. Parte da ideologia preservacionista subjacente
ao estabelecimento dessas áreas protegidas está baseada na
visão do homem como necessariamente destruidor da natureza
(DIEGUES, 2000, p. 11).
O cidadão vivencia o lazer e o turismo como prática livre e como
necessidade humana, muitas vezes utilizando-se deste como intermediador de
suas relações com a natureza. Nesse sentido, é preciso reconhecer a existência
de certos limites, mas também de possibilidades de superação destes.
Algumas vezes, ao realizar atividades em áreas naturais, como as UC, o
indivíduo adota o mesmo comportamento do meio urbano (pressa, consumo,
degradação do meio ambiente, individualismo, competitividade, fetichização da
natureza etc), haja vista que as insatisfações, frustrações e desintegrações do
trabalho, comumente se reverberam também nos momentos de lazer. Sabe-se
que a vivência social é dialética e, portanto, a alienação no trabalho gera a
evasão e processos compensatórios no lazer.
Além disso, o lazer e o turismo, muitas vezes, se tornam objetos de fácil
manipulação do poder público e do próprio mercado, no sentido de direcionar a
sociedade moderna em busca de compensações que a aliene.
deliberativo. Os componentes têm por responsabilidade acompanhar a elaboração, a formatação
e a implementação do Plano de Manejo.
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Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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Neiman, Mendonça e Schlindwein (2008) descrevem a existência de um
campo mitificado que funciona, em grande medida, como válvula de escape e de
compensação à vida complicada da cidade. Uma lógica que, algumas vezes,
acaba por sacralizar a natureza. Cada experiência individual carrega uma
percepção, sob o ponto de vista psicológico, a partir de processos cognitivos
apreendidos, muitas vezes carregados de “reflexos e impressões fugazes, tanto
no ambiente físico e social, como no imaginário” (p.116), fazendo com que as
pessoas vivenciem alguns ambientes e criem certas fantasias sobre os mesmos.
Jacobs (2000) alerta para a necessidade de se superar algumas
concepções fantasiosas de que esses tipos de áreas verdes servirão como
“pulmões da cidade”. A compreensão da necessidade dessas áreas na cidade e
em suas imediações deve superar essa ficção, e buscar compreendê-las sob
uma ótica mais abrangente.
É preciso atentar para a realidade de que algumas vivências em Unidades
de Conservação podem trazer impactos positivos, mas também podem causar
impactos negativos, o que remete a alguns cuidados e preocupações. Nesse
sentido, alguns estudos específicos demonstram a importância da implantação
de alguns métodos de planejamento e de manejo, que foram elaborados com o
objetivo de minimizar as questões de impactos ecológicos e sociais em áreas
ambientais utilizadas para lazer e turismo.
Segundo Barros e Dines (2000, p. 70), esses métodos foram criados e são
utilizados pelos sistemas de parques de diversos países, no sentido de dar maior
ênfase às condições desejadas para as áreas naturais, e não quanto uso a área
pode tolerar. “Isto corrobora de forma interessante o fato de que uma simples
solução numérica é insuficiente para atender às necessidades de manejo das
áreas naturais”.
Entre os que apresentaram os melhores resultados podemos
citar Limits of Acceptable Change (LAC)5
(Stankey et al., 1985),
utilizado em várias unidades de conservação e áreas protegidas
nos EUA; Visitor Activity Management Process (VAMP)
(GRAHAM, 1989), utilizado pelo sistema de parques do Canadá;
Visitor Impact Management (VIM) (Graefe et al., 1990) e Visitor
5 Para mais detalhes, ver Takahashi (1998).
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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Experience and Resource Protection (VERP) (USDI, 1993),
desenvolvidos pelo Sistema Nacional de Parques dos EUA
(BARROS; DINES, 2000, p. 70).
Uma das estratégias para melhorar a atitude daqueles que visitam áreas
naturais e vivenciam o lazer e turismo nestas áreas, é a adoção de um programa
de educação ambiental e educação para as práticas de mínimo impacto, partindo
do pressuposto de que a grande maioria dos usuários de lazer na natureza, não
tem uma compreensão muito clara dos impactos que podem causar nestas áreas
e sobre suas ações no cotidiano das cidades. Para os referidos autores “é uma
estratégia que parte do princípio de que, recebendo informações pertinentes, de
modo adequado, o usuário estará disposto a mudar suas práticas e hábitos em
suas visitas à natureza” (BARROS E DINES, 2000, p. 71-72),
Alguns outros autores traçam caminhos para se referir às estratégias de
articulação de processos educativos formais com ações práticas informais em
espaços fora da escola, como é o caso de Reigota (1994), que compreende a
educação ambiental como um componente essencial no processo de formação
e educação permanente, com uma abordagem direcionada para a resolução de
problemas, que contribui para o envolvimento ativo do público, torna o sistema
educativo mais relevante e mais realista e estabelece uma maior
interdependência entre estes sistemas e o ambiente natural e social, com o
objetivo de um crescente bem-estar das comunidades humanas.
Nas UC, é possível adotar a educação ambiental informal, a qual pode ser
trabalhada por meio do desenvolvimento de atividades de lazer realizadas em
ambientes naturais e contribuir para a conscientização de comportamentos na
natureza de forma lúdica, caracterizando-se como um:
[...] processo que consiste em propiciar às pessoas uma
compreensão crítica e global do ambiente, para elucidar valores
e desenvolver atitudes que lhes permitam adotar uma posição
consciente e participativa a respeito das questões relacionadas
com a conservação e a adequada utilização dos recursos
naturais, para a melhoria da qualidade de vida e a eliminação da
pobreza extrema e do consumismo desenfreado. A Educação
Ambiental visa à construção de relações sociais, econômicas e
culturais capazes de respeitar e incorporar as diferenças
(minorias étnicas, populações tradicionais), à perspectiva da
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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mulher e à liberdade para decidir caminhos alternativos de
desenvolvimento sustentável, respeitando os limites dos
ecossistemas, substrato de nossa própria possibilidade de
sobrevivência como espécie (MEDINA, 2001, p. 17-18).
Entende-se ser de bastante relevância os Processos Formativos dos
profissionais que atuam ou atuarão nas UC e que têm sob sua responsabilidade
o planejamento e a execução de atividades de lazer e turismo dentro das
mesmas.
Em pesquisas realizadas anteriormente sobre a formação e a atuação dos
profissionais junto à natureza (MARINHO, 2003, 2004; MARINHO e INÁCIO
2007; CORREA, 2008; BAHIA e ALVES, 2010, 2012), percebeu-se certa
dificuldade em promover uma capacitação específica para atuar nessas práticas,
tais como, o pequeno número de especialistas nessa área, a falta de materiais
pedagógicos, o reduzido apoio didático e a recente inclusão de disciplinas
voltadas para essa área em cursos de graduação de Educação Física, Turismo
e Biologia. Os avanços se dão no sentido de ser um campo em crescimento,
cada vez mais procurado e com atividades diversas a serem ofertadas para
todos os públicos. O investimento em cursos e leis que amparam a ação
profissional no meio ambiente também tem avançado.
A formação do profissional que atuará com o lazer e turismo em áreas
naturais precisa se pautar na realidade concreta do mundo moderno e deve criar
condições de observações atentas para algumas nuances compensatórias que
essas vivências possam apresentar, haja vista que, muitas vezes, passam a ser
uma válvula de escape da vida cotidiana e do estresse da vida urbana, os quais
se refletem na busca do elemento “exótico” nas viagens à natureza e uma certa
fuga de valores que são vividos no cotidiano das pessoas (PELLEGRINI FILHO,
1997; BAHIA, 2012).
A prática pedagógica precisa fomentar a reflexão das pessoas, e não
reforçar a alienação e a fuga da realidade, pois a procura por essas atividades –
seja por meio da contemplação da natureza, seja por meio de atividades (turismo
de aventura, esportes de aventura) que proporcionem a sensação de
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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"adrenalina” –, não deve ser instrumento para o esquecimento do humano que
marca o cotidiano, mas para que se reflita sobre este (SERRANO, 2000).
Para isso, precisa contribuir para um debate que propicie um processo
consciente de vivência e de intervenção educativa, na busca do desenvolvimento
de relações mais saudáveis entre os indivíduos, a sociedade e a natureza,
utilizando-se de ferramentas e metodologias ancoradas numa concepção crítica
de educação ambiental, a qual é fundamentada como aquela que representa a
aplicação dos ideais democráticos e emancipatórios e se propõe a discutir “os
mecanismos de dominação humana pela acumulação de capital” (RODRIGUES;
CAMPANHÃO; BERNARDI, 2018).
O diferencial da tendência crítica é o fato de ter como
impulsionadores a problematização e a politização das questões
ambientais, não se atendo apenas aos aspectos biológicos ou
de melhoria da ecoeficiência. Em seu escopo há a necessidade
de enfrentamento político das desigualdades e injustiças
socioambientais. Outro ponto de destaque da tendência crítica é
a complexidade com que as questões ambientais são
abordadas, indo contra o reducionismo da ação individual em
prol de um bem comum. Esta linha compreende que as questões
ambientais emergentes possuem diferentes faces de poder e
dominação e que, para que se possa construir um conhecimento
transformador, o reducionismo não pode ser premissa
(RODRIGUES; CAMPANHÃO; BERNARDI, 2018, p. 193-194).
Considera-se que atuar na natureza é se sentir parte do meio ambiente,
se sensibilizar, desenvolver valores éticos, solidários, de convívio, de respeito e
de consciência de projeto coletivo de vida. Pensar e atuar com olhares para
geração futura e em prol da comunidade local. Reunindo os saberes e
conhecimentos em torno das competências operacionais, os saberes e
conhecimentos subjetivos que estão ligados a história de vida e cultura de cada
profissional (BAHIA e ALVES, 2010).
Com esse olhar, o meio ambiente assume um significado mais
abrangente, na medida em que é interpretado como o resultado das inter-
relações entre natureza e a sociedade, valorizando-se a relação meio ambiente
- qualidade de vida (social, e não apenas natural) numa esfera de amplitude
socioambiental. “Assim as propostas de educação ambiental devem buscar
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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estimular ao máximo a capacidade dos sentidos de seu público, tendo em vista
a possibilidade de utilização dos mesmos para a concretização de atitudes
comprometidas com o meio ambiente” (TUAN, 1980, p. 12).
FINALIZANDO A TRILHA ...
Longe de se fechar o debate ou de se apontar “fórmulas mágicas” sobre
a temática, cabe aqui apenas levantar alguns pontos para reflexões atuais e
futuras.
As Unidades de Conservação podem se estabelecer como espaços
relacionais, no seu interior, no que se refere às possibilidades de uso público de
seu espaço, por meio de vivências de lazer, turismo e educação ambiental,
viabilizando condições de reflexões críticas e melhorias nas relações ser
humano-natureza.
Também podem viabilizar possibilidades de relações mais ampliadas, nas
quais possa se relacionar com seu exterior, ou seja, com o seu entorno, com a
cidade, com o coletivo, fomentando debates e participação popular, que possam
contribuir com a necessidade de atuação política na reivindicação de Políticas
Públicas de Meio Ambiente, de Lazer, de Turismo, de Planejamento da Cidade,
de Espaços Públicos e de Democratização Cultural e acesso à cidade (praças,
áreas naturais, espaços culturais e programas de lazer), em busca do “Direito à
Cidade” (LEFÈBVRE, 2001) e da reconstituição da unidade espaço-temporal, da
reunião dos grupos, do encontro das pessoas, da felicidade de viver a cidade e
da necessidade de se ter uma cidade socio ambientalmente equilibrada.
Um outro ponto a se considerar é a possibilidade de articulação entre
educação formal (ações nas escolas) e educação não formal (ações na própria
UC), para viabilizar debates críticos sobre os problemas ambientais, agregando
as dimensões sociais, políticas e culturais, pressupondo um questionamento da
estrutura social vigente. Além disso, considerar a necessidade de fomentar
macrodiscussões interdisciplinares, agregando temáticas gerais referentes à
sociedade e ao meio ambiente (cidades sustentáveis, intersetorialidade,
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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planejamento estratégico, gestão ambiental, governança) e temáticas
específicas sobre a atuação profissional nas áreas ambientais, sobre impactos
socioambientais das práticas no meio ambiente e na própria UC.
As vivências de lazer, turismo e educação ambiental, ao assumirem um
aspecto educativo para além de práticas relacionadas aos padrões de consumo,
podem ser um dos elementos capazes de contribuir para uma certa inversão
dessa lógica. É importante salientar que tais vivências, muitas vezes,
independem da existência de uma intervenção direta do poder público,
entretanto, na cidade repartida, estas acabam por funcionar por meio da
institucionalização, e as políticas públicas se transformam em elementos
importantes para se viabilizar formas de educação para vivências mais
qualificadas.
As políticas públicas podem assumir um papel de produzir maiores
oportunidades, quando criam, facilitam o acesso e democratizam espaços
públicos, como as Unidades de Conservação. Possivelmente, serão esses
espaços que poderão vir a qualificar a diversidade de tais experiências e as
possibilidades relacionais ali estabelecidas, mas evitando estabelecer formas
muito organizadas e estruturadas de práticas que possam não atender às
demandas e às necessidades dos usuários e sim, buscando possibilidades de
vivências mais emancipatórias, livres e transformadoras.
E, como alerta Serpa (2009, p. 143), uma nova linguagem deve ser
construída, baseada na intersubjetividade das experiências, que pode revelar
pontos comuns entre profissionais e leigos. “A chave para a participação é o
diálogo. E o diálogo pressupõe a desconstrução da hierarquia das diferenças”.
Portanto, é necessário que os responsáveis pela elaboração dos projetos
“desçam do alto de seus conhecimentos técnicos” e busquem o diálogo com a
população, que mesmo “leiga” no assunto, muitas vezes é capaz de apontar a
realidade e suas necessidades concretas.
BAHIA, Mirleide Chaar. Unidades de Conservação como espaços relacionais. In: SANSOLO,
Davis Gruber (Org.). Uso Público em Áreas Protegidas: Contribuições para Gestão de Unidades
de Conservação.1 ed. São Paulo - SP: Editora UNESP, 2020, v.1, p. 69-81.
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